Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato... Ou toca, ou não toca. Com todo perdão da palavra, eu sou um mistério para mim. Sou composta por urgências: minhas alegrias são intensas; minhas tristezas, absolutas. Entupo-me de ausências, me esvazio de excessos. Eu não caibo no estreito, eu só vivo nos extremos.
Estou procurando, estou tentando me entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não é que vivo em eterna mutação, com novas adaptações a meu renovado viver e nunca chego ao fim de cada um dos modos de existir. Vivo de esboços não acabados e vacilantes. Mas equilibro-me como posso, entre mim e eu, entre mim e os homens, entre mim e o Deus. Minhas desequilibradas palavras são o luxo do meu silêncio. A única verdade é que vivo. Sinceramente, eu vivo. Quem sou? Bem, isso já é demais.
Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata. A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam. Para aqueles que buscam e tentam sempre. Depois de toda luta e cada descanso, quero me levantar forte e pronta, como um cavalo novo. Inútil querer me classificar, eu simplesmente escapulo não deixando. Gênero não me pega mais. Por te falar eu te assustarei e te perderei? Mas se eu não falar eu me perderei, e por me perder eu te perderia. Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite. Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome. Por enquanto estou inventando a tua presença...
(Clarice Lispector)
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"Te trago meus versos simples, mas que fiz de coração"